quinta-feira, 3 de julho de 2014

Senha 223

Estava eu na fila de um banco, precisava sair dali, aquele monte de pessoas sentadas esperando, aquela demora, eu me sentia presa, e entediada, as pessoas iam lentamente ao caixa, e aquilo me aborrecia. Sentou do meu lado uma senhora, já de idade, seus olhos brilhavam e ela trazia no rosto um sorriso, eu não entendia, olhei ao redor, todas as pessoas bravas, de cara fechada, alguns quase dormindo, olhei mais uma vez para a senhora do meu lado e acho que ela percebeu que sua felicidade me intrigava, ela me olhou simpática e perguntou o número de minha senha. Lhe respondi 223- Ela deu um sorriso e me mostrou o mesmo papel impresso com o número 264. Não conseguia sentir pena dela o seu sorriso e o brilho em seus olhos não deixava. Começamos a conversar, coisas rotineiras, perguntei sobre seu marido, ela sorriu mais uma vez, talvez ainda mais que as anteriores e disse que ele tinha falecido em uma guerra. Me desculpei e perguntei como se sentia com os netos correndo pela casa, e novamente vi aquele sorriso, ela me disse que não tinha netos, sua filha tinha câncer e faleceu antes que pudesse lhe dar os netos. Eu imaginei como isso era triste, porém ela sorria, de verdade, sorria com alegria. Não me contive, perguntei-lhe porque ainda sorria depois de tanta tragédia e ela me respondeu .
" Eu sorrio porque pude dizer a eles o quanto os amava, tive a chance de demonstrar em cada segundo de vida deles que eram importantes em minha vida, ajudei a vencer as dificuldades e estive ali do lado, nunca sequer pensei em sair, porque amei cada segundo da minha vida, e hoje trago esse sorriso porque sei que eles souberam disso".
Sorri pra ela, e sai quando a chamada de senha estava no número 222, precisava falar para alguém o quanto o amava e como ia sorrir depois por ele saber disso.   

A árvore

Aquela última folha desta árvore seca está pendurada ali a dias, passo por aqui todos os dias, esperando, para ver quando ela vai cair.Ela continua viva lá em cima, já suportou sol, chuva, vento forte, mas por algum motivo ela continua lá, algo a mantem no topo desta árvore quase morta, algo a mantem em pé.
Fazem exatamente 3 dias que chego aqui sento neste banco e imagino por que ela continua lá. Gosto de pensar que ela está lá por algo, algo que a faz feliz.
Queria eu ser assim, me manter intacta ali, me manter e suportar a tudo, queria eu não me abalar por nada, suportar a tempestade forte e não ter medo do trovão, quem sabe eu encontro a árvore que me mantem ali segura, que não me deixe cair.
PS.: Passei para ver aquela folha hoje de novo, mas alguém cortou a árvore, então ela se foi, mas suportou até onde conseguiu...