Estava eu na fila de um banco, precisava sair dali, aquele monte de pessoas sentadas esperando, aquela demora, eu me sentia presa, e entediada, as pessoas iam lentamente ao caixa, e aquilo me aborrecia. Sentou do meu lado uma senhora, já de idade, seus olhos brilhavam e ela trazia no rosto um sorriso, eu não entendia, olhei ao redor, todas as pessoas bravas, de cara fechada, alguns quase dormindo, olhei mais uma vez para a senhora do meu lado e acho que ela percebeu que sua felicidade me intrigava, ela me olhou simpática e perguntou o número de minha senha. Lhe respondi 223- Ela deu um sorriso e me mostrou o mesmo papel impresso com o número 264. Não conseguia sentir pena dela o seu sorriso e o brilho em seus olhos não deixava. Começamos a conversar, coisas rotineiras, perguntei sobre seu marido, ela sorriu mais uma vez, talvez ainda mais que as anteriores e disse que ele tinha falecido em uma guerra. Me desculpei e perguntei como se sentia com os netos correndo pela casa, e novamente vi aquele sorriso, ela me disse que não tinha netos, sua filha tinha câncer e faleceu antes que pudesse lhe dar os netos. Eu imaginei como isso era triste, porém ela sorria, de verdade, sorria com alegria. Não me contive, perguntei-lhe porque ainda sorria depois de tanta tragédia e ela me respondeu .
" Eu sorrio porque pude dizer a eles o quanto os amava, tive a chance de demonstrar em cada segundo de vida deles que eram importantes em minha vida, ajudei a vencer as dificuldades e estive ali do lado, nunca sequer pensei em sair, porque amei cada segundo da minha vida, e hoje trago esse sorriso porque sei que eles souberam disso".
Sorri pra ela, e sai quando a chamada de senha estava no número 222, precisava falar para alguém o quanto o amava e como ia sorrir depois por ele saber disso.